{"id":282,"date":"2001-09-21T15:57:51","date_gmt":"2001-09-21T18:57:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.riodaprata.eco.br\/blog\/?p=282"},"modified":"2019-08-21T15:58:58","modified_gmt":"2019-08-21T18:58:58","slug":"a-fauna-das-aguas-claras-de-bonito-revista-galileu-set-2001","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.riodaprata.eco.br\/blog\/2001\/09\/21\/a-fauna-das-aguas-claras-de-bonito-revista-galileu-set-2001\/","title":{"rendered":"A fauna das \u00e1guas claras de Bonito &#8211; Revista Galileu Set. 2001"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Texto Jos\u00e9 Sabino*<br>Fotos Luciano Candisani<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>*Jos\u00e9 Sabino \u00e9 bi\u00f3logo, doutor em ecologia pela Unicamp, pesquisador da Uniderp. Em Bonito, ele estuda comportamento de peixes e coordena um projeto de ecoturismo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um lugar no Brasil imperd\u00edvel para turistas em busca de mergulhos, passeios em \u00e1guas transparentes e tamb\u00e9m para quem deseja ver peixes de cores e tamanhos variados. Trata-se de Bonito, em Mato Grosso do Sul. L\u00e1, a transpar\u00eancia da \u00e1gua \u00e9 quase total, devido ao calc\u00e1rio dissolvido, que age como um decantador natural. Com uma simples m\u00e1scara de mergulho \u00e9 poss\u00edvel ver peixes a 25 metros de dist\u00e2ncia. Em rios como o Ba\u00eda Bonita, Sucuri e Olho D\u2019\u00c1gua, \u00e9 f\u00e1cil observar piranhas, joaninhas, dourados e o pequenino mato-grosso, de cor vermelho-escarlate. Mas, al\u00e9m do turismo, Bonito tem outra voca\u00e7\u00e3o: a ci\u00eancia. Seus t\u00eam uma grande variedade de nascentes, com peixes n\u00e3os avistados em outros lugares. S\u00f3 na nascente do Rio Ba\u00eda Bonita \u2013 conhecida como Aqu\u00e1rio Natural \u2013 vivem cerca de 30 esp\u00e9cies diferentes de peixes. <\/p>\n\n\n\n<p>Mais que um espet\u00e1culo, a transpar\u00eancia das \u00e1guas em Bonito \u00e9 o fator que contribui decisivamente para o estudo dessa diversidade de animais e plantas aqu\u00e1ticas. As \u00e1guas l\u00edmpidas facilitam a entrada de luz, favorecendo a fotoss\u00edntese das plantas aqu\u00e1ticas. Estas, por sua vez, servem de abrigo e de alimento abundante \u00e0s outras formas de vida. As seis principais nascentes da regi\u00e3o, al\u00e9m do Aqu\u00e1rio Natural, abrigam cerca de 80 esp\u00e9cies de peixes, das quais 20% ainda n\u00e3o foram descritas. Por isso, bi\u00f3logos de outros Estados n\u00e3o resistem \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de mergulhar nessas \u00e1guas claras.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas pesquisas j\u00e1 renderam resultados surpreendentes, como a descoberta do crust\u00e1ceo Potticoara brasiliensis. Os maiores exemplares medem cerca de 7 mm de comprimento, e foram encontrados em lagos subterr\u00e2neos da regi\u00e3o, como a Gruta do Lago Azul, a mais famosa da cerca de 30 cavernas ali existentes. Trata-se de uma rel\u00edquia biol\u00f3gica, segundo a bi\u00f3loga Ana Maria Vanin, do Instituo Oceanogr\u00e1fico da USP. O Potiicoara (pequeno camar\u00e3o, em tupi) permitiu \u00e0 pesquisadora reinterpretar parte da evolu\u00e7\u00e3o dos crust\u00e1ceos desde a \u00e9poca do Gondwana, como ficou conhecido o continente que come\u00e7ou a se dividir h\u00e1 135 milh\u00f5es de anos, formando a Am\u00e9rica do Sul, \u00c1frica, Austr\u00e1lia, Ant\u00e1rtida e \u00cdndia. Hoje,  grupo desse crust\u00e1ceo milim\u00e9trico s\u00f3 \u00e9 encontrado no Brasil e na \u00c1frica do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>As \u00e1guas claras da regi\u00e3o abrigam outro animal raro, o cascudo albino (Ancistrus formoso), descrito por Eleonora Trajano, do Instituto de Bioci\u00eancias da USP. O peixe \u00e9 cego, e s\u00f3 conhecido na nascente do Rio Formoso, a 40 km de Bonito. Como suas popula\u00e7\u00f5es parecem ser pequenas, ele ser\u00e1 relacionado na lista de esp\u00e9cies brasileiras amea\u00e7as de extin\u00e7\u00e3o a ser divulgada at\u00e9 o fim do ano. Estudar o peixe, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Ele habita t\u00faneis inundados, de 30 a 60 metros de profundidade. N\u00e3o se sabe por que existem t\u00e3o poucos esp\u00e9cimes. Mas outra bi\u00f3loga, Luciana Paes de Andrade, da Uniderp, estuda um organismo que serve como indicador da qualidade da \u00e1gua: o caramujo do g\u00eanero Pomacea, sens\u00edvel a poluentes. Quando sua popula\u00e7\u00e3o diminui, os cientistas sabem que algo de estranho est\u00e1 ocorrendo com a \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de fornecer frutos e insetos como alimento aos peixes, a vegeta\u00e7\u00e3o que margeia os rios evita que eles desbarranquem, ajudando a manter a pureza da \u00e1gua. Esse tipo de veget\u00e7a\u00f5, chamado de mata ciliar, \u00e9 imprortante tamb\u00e9m para a fauna terrestre, pois forma corredores para animais de diferentes h\u00e1bitos e tamanhos. Nas matas de Bonito h\u00e1 quatis, macacos-prego, antas, cutias, tucanos e mutuns (ave que figura na lista de esp\u00e9cies brasileiras amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>Peixes que seguem macacos<\/p>\n\n\n\n<p>A apenas 7 km de Bonito, no Aqu\u00e1rio Natural, os pesquisadores registraram uma curiosa integra\u00e7\u00e3o entre macacos e peixes. Eles descobriram que a piraputanga, uma esp\u00e9cie de peixe muito comum na regi\u00e3o, tem o h\u00e1bito de seguir os macacos-pregos. Enquanto eles se deslocam pelas \u00e1rvores que margeiam o Rio Ba\u00eda Bonita em busca de alimento, principalmente pequenos furtos, como figos silvestres, ing\u00e1s e goiabinhas, elas ficam \u00e0 espera do que cai na \u00e1gua. Os macacos costumam fazer grande algazarra pelo mato e se movimentam entre os galhos das \u00e1rvores com tanta voracidade em busca de comida que, na pressa, deixam cair parte da refei\u00e7\u00e3o no rio. Os frutos, ao ca\u00edrem na \u00e1gua, atraem a aten\u00e7\u00e3o das piraputangas. Pelo comportamento inusitado, os cientistas passaram a cham\u00e1-las de peixes seguidores. N\u00e3o se conhecem outras rel\u00e7\u00f5es desse tipo no Brasil. Algo semelhante s\u00f3 ocorre no Qu\u00eania, onde algumas esp\u00e9cies aparentadas das carpas seguem os hipop\u00f3tamos. Quando nadam, eles levantam sedimentos que cont\u00eam pequenos invertebrados, um banquete para os peixes.<\/p>\n\n\n\n<p>Galileu, Setembro de 2001.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto Jos\u00e9 Sabino*Fotos Luciano Candisani *Jos\u00e9 Sabino \u00e9 bi\u00f3logo, doutor em ecologia pela Unicamp, pesquisador [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.riodaprata.eco.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/282"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.riodaprata.eco.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.riodaprata.eco.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.riodaprata.eco.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.riodaprata.eco.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=282"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.riodaprata.eco.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/282\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":283,"href":"https:\/\/www.riodaprata.eco.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/282\/revisions\/283"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.riodaprata.eco.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=282"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.riodaprata.eco.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=282"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.riodaprata.eco.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=282"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}