Bonito na Revista Viaje Mais Nº10 – Março 2002

por Jorge Souza Bonito tem…
… Aventuras como em Brotas
… Mergulhos como em Noronha
… Cavalgadas como no Pantanal
… Cachoeiras como na Serra do Mar
… Grutas como na Chapada Diamantina
… Rio e peixes como em nenhum outro lugar
Bonito, no Mato Grosso do Sul, é um desses lugares onde o nome já diz tudo. Ou quase. Não é como Americana, que fica aqui mesmo, no Brasil, ou Ilha do Mel, que nem abelhas tem. Mesmo assim, ele não faz totalmente juz. Bonito, no caso, é pouco

Bonito é demais!
Comecei minha viagem como todo mundo costuma começar: imaginando como ir para lá. A primeira opção era pegar um carro e dirigir 1 200 quilômetros desde São Paulo, gastando só de gasolina uma vez e meia o que uma custaria uma passagem de avião para Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul e dona do aeroporto mais próximo de Bonito, ainda que a 300 quilômetros de distância – desisti, senão da viagem, com certeza da idéia de ir com meu próprio carro. Não compensaria, a menos que eu decidisse levar junto a vizinhança inteira, o que não era o caso. A segunda opção era comprar um pacote de uma agência que já incluísse a viagem, a hospedagem e até alguns passeios, já que em Bonito eles são caros pra chuchu. Um, de cinco dias (o que é o bastante para lá), custava por volta de R$ 1 200, se fosse de avião, ou pouco mais da metade disso, de ônibus. Gostei! Sairia barato, eu ganharia companhia de outros turistas e teria transporte direto até lá, apesar das 15 horas de viagem só para ir – felizmente, quase todas noturnas. Mas havia um problema: não havia nenhuma excursão de ônibus programada para o período, porque elas só acontecem nos feriados prolongados. Tive que desistir. Restou, portanto, a opção de misturar as duas coisas, ou seja, o carro e o avião, comprando uma passagem aérea para Campo Grande (R$ 320, ida e volta) e alugando um automóvel lá, para chegar à Bonito (cerca de R$ 300, por quatro dias). Saiu um pouco mais caro (não muito, na verdade, veja o quadro comparativo abaixo), mas em compensação fiquei com mobilidade na cidade, já que a maior roubada que alguém pode fazer em Bonito é ficar a pé: todas as atrações são distantes e, inexplicavelmente, nenhum passeio inclui o transporte até lá. É desanimador. Você compra o ingresso e, em seguida, descobre que não tem como ir. Paga uma pequena fortuna pelos passeios (R$ 40, na média, por pessoa) e ainda gasta mais do que isso pegando um táxi ou alugando uma van. A solução? Rachar o transporte com outros turistas que porventura estejam indo para o mesmo lugar (o que nem sempre dá certo, porque os passeios têm horários diferentes para cada grupo de visitantes), ir de moto-taxi (uma opção regional e econômica, mas muito limitada, já que na garupa, obviamente, só vai um), ou fazer o que eu fiz: alugar um carro (uma das locadoras mais em conta é a Delta, de Campo Grande, % 067/384-0003, www.delta3locadora.com.br, que cobra R$ 62 pela diária, com seguro e quilometragem livre).

Nada disso, porém, é tão importante quanto a primeira providência que se deve tomar em qualquer viagem para Bonito: reservar com antecedência alguns passeios, já que vira e mexe eles lotam e quem não tiver garantido um lugar, ficará a ver navios na cidade. Ou melhor, não verá nada, já que lá todas as atrações exigem compra antecipada do ingresso numa das agências da cidade, reserva de horários (há um número limitado de visitantes por dia, em cada passeio), aluguel de transporte e o acompanhamento de um guia local, que não raro pedirá para ir de carona no seu veículo, já que eles também sofrem com a falta de locomoção na cidade. É uma operação complexa mas organizada, salvo pela inexistência de transporte local que, esta sim, é absurda. Graças ao controle de visitantes, quem faz um passeio em Bonito tem a garantia de jamais esbarrar em multidões, até porque os preços cobrados se encarregam de desanimar a maioria dos turistas. Uma familia de quatro pessoas que quiser mergulhar no Aquário Natural, uma das principais atrações da região, gastará, só de ingressos, R$ 312 na alta temporada, ou R$ 220 no resto do ano. Certamente há maneiras mais democráticas de se evitar a superlotação turística. Mesmo assim, quem vai gosta – sempre gosta! Bonito tem incrível capacidade de surpreender e impressionar qualquer um, desde que haja algum espírito de aventura pulsando nas veias. Não é lugar para gente parada, do tipo que só quer saber de piscina no hotel e uma boa cama, até porque essas duas coisas ainda são relativamente raras por lá.
Quem vencer o receio inicial de vestir uma máscara de mergulho e enfiar a cara nos rios de Bonito, verá aquilo que não existe em nenhum outro lugar do Brasil: a fantástica combinação de grandes peixes com uma água tão cristalina quanto a de um aquário, com a diferença que você estará dentro dele. Tanto que o traje oficial da cidade é o de banho, embora Bonito fique a mais de mil quilômetros da praia mais próxima. A rigor, para curtir as belezas da cidade não é preciso nem se molhar, embora esta seja a melhor parte: as águas são tão transparentes que você vê tudo de cima, peixes e fundo, inclusive.

O programa típico da região consiste em soltar-se na correnteza dos rios e seguir boiando, como nas principais atrações de Cancún. Não é toa, por sinal, que Bonito é chamada de Cancún brasileira, com a ressalva de que ela foi construída pela natureza e não pelo computador, como o balneário mexicano. Um fenômeno: tem águas de Caribe mesmo estando no interior do Mato Grosso do Sul, já quase no Pantanal. As crianças adoram, os adultos vibram e os gringos, que hoje já aparecem aos montes por lá, atraídos pela fama boca-a-boca de um lugar que até 20 anos atrás não passava de uma grande fazenda de gado chamada Rincão Bonito (pensando bem, o nome já dava uma boa dica do que havia por lá), simplesmente piram. E até eles, que não dominam o português, acham que Bonito, no caso, é pouco. O certo seria beautiful, merveilleux, ou qualquer coisa do gênero.

7 maneiras de descrever Bonito
“Se aqui não for o paraíso, é o próprio céu.” Helenice Gasto, Campinas, SP
“Bonito é lindo, divino e maravilhoso.” Etevaldo Ribeiro, São Paulo, SP
“Nunca vi tanta ocoisa tão bonita num lugar só” Márcia Fontoura, Betim, MG
“Jamais Esquecerei. Mesmo assim, voltarei” Flavia Brito, São Paulo, SP
“Conheci um outro mundo: o dos peixes” Oswaldo Atalanta, Juiz de Fora, MG
“Que bela maneira de aproveitar a natureza!” Chieko Asahi, Sorocaba, SP
“Não adianta ler. Tem que conhecer” Silvana Dias, Rio de Janeiro, RJ
Rio da Prata
Se você nunca entrou dentro de um aquário, não faz a menor idía do que irá encontrar ao longo do passeio mais deslumbrante de Bonito, aflutuação no Rio da Prata. Durante quase duas horas, deslizando suavemente ao sabor da correnteza, seus principais companheiros de aventura serão peixes de meio metro de comprimento e a flora submersa de um riacho de água tão pura e cristalina que, se der sede, é só abir a boca e dar umas goladas – não tem problema algum.
A visibilidade da água é tão fabulosa que os peixes parecem voar, enquanto você flutua acima deles, ajudado por uma roupa de borracha que impede que o corpo afune e dispensa até os movimentos de braços e pernas. Você apenas relaxa. E curte. O passeio, que começa com uma boa caminhada até a nascente do rio, termina com um almoço melhor ainda na sede da fazenda, cujo cardápio tem de tudo, menos os peixes do próprio rio, porque isso é proibido e dá até cadeia em Bonito.

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